{"id":5556,"date":"2021-12-04T08:00:57","date_gmt":"2021-12-04T11:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/reus-se-vitimizam-mas-so-sao-vitimas-do-que-eles-mesmos-provocaram-diz-sobrevivente-da-boate-kiss\/"},"modified":"2021-12-04T08:00:57","modified_gmt":"2021-12-04T11:00:57","slug":"reus-se-vitimizam-mas-so-sao-vitimas-do-que-eles-mesmos-provocaram-diz-sobrevivente-da-boate-kiss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/reus-se-vitimizam-mas-so-sao-vitimas-do-que-eles-mesmos-provocaram-diz-sobrevivente-da-boate-kiss\/","title":{"rendered":"\u2018R\u00e9us se vitimizam, mas s\u00f3 s\u00e3o v\u00edtimas do que eles mesmos provocaram\u2019, diz sobrevivente da boate Kiss"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>Em depoimento \u00e0 Jovem Pan, Gabriel Rodavoschi Barros relembra o dia da trag\u00e9dia, conta como lidou com a culpa e diz o que espera do julgamento de quatro acusados pelo inc\u00eandio<\/p>\n<div>\n<div class=\"post_image\"><span class=\"image_fonte\">EVANDRO LEAL \/ ENQUADRAR \/ ESTAD\u00c3O CONTE\u00daDO<\/span><img width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-1024x682.jpg\" class=\"img-responsive type:primaryImage wp-post-image\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-750x500.jpg 750w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-768x512.jpg 768w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-648x432.jpg 648w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-864x576.jpg 864w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-506x337.jpg 506w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012-120x80.jpg 120w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2021\/12\/enq20211203012.jpg 1400w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" loading=\"lazy\"\/><span class=\"image_credits\">Sobreviventes e familiares de v\u00edtimas t\u00eam se reunido em Santa Maria para acompanhar o julgamento dos quatro r\u00e9us<br \/><\/span><\/div>\n<p>Em 27 de janeiro de 2013, <strong>Gabriel Rodavoschi Barros,<\/strong> hoje com 27 anos, resolveu ir \u00e0 mesma boate na qual havia se divertido um dia antes. Rec\u00e9m-ingressado no curso de jornalismo, ele n\u00e3o era afeito a festas, mas se entusiasmara com as amizades constru\u00eddas na v\u00e9spera. A casa noturna \u00e9 a <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/boate-kiss\" rel=\"noopener\"><strong>Kiss,<\/strong><\/a> na cidade de <strong><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/santa-maria\" rel=\"noopener\">Santa Maria<\/a><\/strong>, no <strong><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/rio-grande-do-sul\" rel=\"noopener\">Rio Grande do Sul<\/a><\/strong>, onde um <strong><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/incendio\" rel=\"noopener\">inc\u00eandio<\/a><\/strong> tirou a vida de 242 pessoas naquela tr\u00e1gica noite de janeiro. Gabriel \u00e9 um dos sobreviventes. Em depoimento \u00e0 <strong>Jovem Pan<\/strong>, ele conta o que se lembra da trag\u00e9dia, como lidou com a dor e a culpa, de que forma o desastre influenciou sua vida e o que espera do julgamento que come\u00e7ou na \u00faltima quarta-feira, 1\u00ba.<\/p>\n<p>Os r\u00e9us s\u00e3o <span class=\"highlight highlighted\">Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, s\u00f3cios da boate, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no local: o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos, que acendeu um artefato pirot\u00e9cnico no meio do show, e o auxiliar de palco Luciano Bonilha Le\u00e3o, acusado de t\u00ea-lo comprado<\/span>. O fogo come\u00e7ou ap\u00f3s o artefato incendiar uma espuma instalada no teto para prover isolamento ac\u00fastico. Uma rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica teria feito o material liberar cianeto, que sufocou parte dos presentes na casa lotada. Os quatro foram indiciados por 242 homic\u00eddios com dolo eventual. O caso foi submetido a j\u00fari popular em um tribunal de <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/porto-alegre\" rel=\"noopener\"><strong>Porto Alegre<\/strong><\/a>, presidido pelo juiz Orlando Faccini Neto.<\/p>\n<p>A defesa de Spohr alega que os verdadeiros culpados s\u00e3o os agentes p\u00fablicos que deixaram a boate funcionar normalmente. \u201cMeu cliente tem vivido a ang\u00fastia de ter sido acusado de atuar dolosamente para a ocorr\u00eancia da morte de in\u00fameras pessoas, mesmo ele obedecendo tudo que o poder p\u00fablico determinava na \u00e9poca para um empres\u00e1rio do ramo de casas noturnas. Ele \u00e9 acusado pela mesma m\u00e3o que abriu a porta da boate e permitiu o funcionamento dela\u201d, diz o advogado Jader Marques, em nota. Os advogados dos m\u00fasicos usam estrat\u00e9gia semelhante. \u201cA gente vai conseguir provar, sim, que o Marcelo e o Luciano s\u00e3o inocentes. N\u00e3o temos inten\u00e7\u00e3o de acusar ningu\u00e9m, salvo os agentes p\u00fablicos\u201d, declarou, em uma transmiss\u00e3o ao vivo, Tatiana Borsa, que foi contratada por Marcelo Jesus dos Santos. Bruno Seligman de Menezes, advogado de Hoffmann, destaca que a casa tinha os alvar\u00e1s do Corpo de Bombeiros e foi visitada por agentes do Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u201cSe h\u00e1 irresponsabilidade de alguns, tem que haver a de todos\u201d, afirma Menezes. No primeiro dia de julgamento, <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/noticias\/brasil\/reu-do-caso-da-boate-kiss-grita-nao-sou-assassino-e-chora-ao-chegar-para-julgamento.html\" rel=\"noopener\">o auxiliar de palco Luciano Bonilha Le\u00e3o chorou bastante e gritou: \u201cN\u00e3o sou um assassino\u201d<\/a>. Ele precisou ser atendido na enfermaria.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho feito um apelo por humanidade nesse per\u00edodo de julgamento, porque a gente v\u00ea muitas manobras da defesa dos r\u00e9us, que tentam se vitimizar, quando eles s\u00f3 s\u00e3o v\u00edtimas do que eles mesmos foram respons\u00e1veis\u201d, desabafou Gabriel Barros. Marcado definitivamente pela trag\u00e9dia em Santa Maria, o ex-estudante de jornalismo trocou a comunica\u00e7\u00e3o pela psicologia \u2014 \u201cmuito em fun\u00e7\u00e3o do que aquilo me casou\u201d \u2014, integra um coletivo de sobreviventes e acompanha o julgamento. Segundo ele, n\u00e3o em busca de vingan\u00e7a, mas de justi\u00e7a. \u201cPara mim, \u00e9 inquestion\u00e1vel a responsabilidade desses quatro r\u00e9us, pela emboscada a que a gente foi submetido. Independentemente de haver ou n\u00e3o mais respons\u00e1veis, isso n\u00e3o tira a responsabilidade de quem est\u00e1 sendo julgado.\u201d<\/p>\n<h2><strong>A trag\u00e9dia<\/strong><\/h2>\n<p>Eu tinha 18 anos e fazia jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Era uma pessoa que n\u00e3o tinha o costume de sair, nunca tinha ido em boate, n\u00e3o era de festa e estava me dispondo a conhecer esse mundo. Na noite anterior ao inc\u00eandio, eu me meti num grupo de amigos, de colegas do curso, que iriam numa festa na Kiss tamb\u00e9m. Consegui ir com eles nessa festa, que, se n\u00e3o me engano, era de alguma turma da comunica\u00e7\u00e3o social, era meu grupo ali. L\u00e1, eu conheci uma menina que fazia zootecnia na \u00e9poca, a gente conversou, ficamos juntos, eu conheci uma amiga dela, e fui convidado para ir no dia seguinte, quando teria a festa da zootecnia e de alguns outros cursos. Chegando o dia seguinte, eu fui com ela e mais duas amigas, uma que eu j\u00e1 conhecia e a outra que morava junto com elas. Logo na fila, at\u00e9 comentei que, no dia anterior, n\u00e3o tinha tanta na fila. Antes de entrar, encontrei amigos meus da \u00e9poca do col\u00e9gio e acabei ficando junto com eles. Eram tr\u00eas. Encontramos mais um l\u00e1 dentro e acabamos ficando nesse grupo, eu e mais quatro. Foi assim que se deu in\u00edcio \u00e0 minha noite.<\/p>\n<p>Naquela noite, a gente deu algumas voltas l\u00e1 dentro. Eu ia acompanhando eles porque eu n\u00e3o conhecia como era essa vida em festa, em boate, ent\u00e3o eu seguia, eles iam me guiando. A gente decidiu parar numa hora, num determinado lugar, que era na frente de uma cabine de DJ, onde o DJ n\u00e3o estava \u2014 ele estava em outra, de frente para o palco em que come\u00e7ou o inc\u00eandio. Nisso de dar voltas por l\u00e1, dois dos meus amigos continuaram, e eu e os outros dois decidimos ficar por ali, porque era desconfort\u00e1vel se mexer no lugar superlotado. Est\u00e1vamos cansados de andar , quer\u00edamos ficar parados. Foi mais ou menos a\u00ed, depois que eles sa\u00edram, que a m\u00fasica parou. Foi o primeiro sinal de que alguma coisa estava acontecendo. Eu n\u00e3o tinha a vis\u00e3o do palco e, quando a m\u00fasica parou, come\u00e7ou um telefone sem fio de quem estava por ali, falando que era briga. A\u00ed essa mensagem chegou at\u00e9 n\u00f3s, eu virei para os meus amigos e falei: \u201cOlha, acho que \u00e9 briga\u201d. Nisso que eu falei, dei alguns passos em dire\u00e7\u00e3o a uma canto porque, junto com esse murmurinho, eu vi que as cabe\u00e7as estavam se virando em dire\u00e7\u00e3o ao palco para ver o que acontecia, porque, aparentemente, o tumulto vinha de l\u00e1. Foi quando eu vi algu\u00e9m de camisa branca, sinalizando com os bra\u00e7os para sair, para se mexer, algo assim. Ele estava logo \u00e0 frente do banheiro dos fundos, e fui. Eu tinha certeza que os amigos que estavam comigo me acompanharam nesse \u00edmpeto que eu tive. Nisso, eu andei poucos passos, talvez uns quatro, porque se abriu um v\u00e3o com as pessoas, por causa do tumulto que estava se iniciando, da movimenta\u00e7\u00e3o em massa, e a\u00ed eu fiquei preso, porque as portas n\u00e3o estavam abertas.<\/p>\n<p>De onde eu estava, as pessoas se encaminhavam para a entrada, porque para a sa\u00edda tinha que dar uma volta imensa \u2014 o caminho formal da sa\u00edda da boate desembocava na mesma sa\u00edda pra rua e tinha que dar uma volta para passar no caixa. Eu s\u00f3 me enfileirei, junto com todo mundo e fiquei preso na multid\u00e3o. Para mim, ainda era uma briga, eu n\u00e3o tinha visto nada. Eu s\u00f3 fui me dar conta de que era inc\u00eandio quando a fuma\u00e7a chegou em mim, eu ainda estava no meio da multid\u00e3o e as portas ainda n\u00e3o tinham aberto, o que demorou um pouquinho para acontecer. Eu lembro de ver as pessoas empurrando e gritando bastante. No primeiro relance, ainda era uma fuma\u00e7a branca que ardia os olhos e o nariz. Ent\u00e3o pensei: \u201cBom, como era briga, devem ter largado o g\u00e1s lacrimog\u00eaneo aqui para dispersar\u201d. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o alguma do que estava acontecendo. No momento que eu terminei esse pensamento na minha cabe\u00e7a, a fuma\u00e7a j\u00e1 escureceu e, com a ard\u00eancia e o calor, eu me dei conta de que era um inc\u00eandio. Eu pensei: \u201cVou colocar a gola da minha camisa na frente da boca e do nariz, vou tentar n\u00e3o gritar porque j\u00e1 tem gente gritando e eu vou precisar desse ar. E tamb\u00e9m vou tentar segurar a respira\u00e7\u00e3o porque do\u00eda para respirar\u201d. Com isso, eu tentei manter a cabe\u00e7a um pouco baixa, para manter a gola na frente da boca e do nariz e fui, segui o fluxo.<\/p>\n<p>As pessoas estavam andando, eu estava esmagado entre elas. Eu sempre fui muito magro, e aos 18 anos era mais magro ainda, ent\u00e3o n\u00e3o sei o quanto eu andei e o quanto eu fui \u201candado\u201d. Eu lembro de me apoiar nas pessoas com meu bra\u00e7o e, ao mesmo tempo, n\u00e3o querer empurrar elas porque era muito dif\u00edcil de manter o equil\u00edbrio ali. Antes de chegar na primeira porta, eu j\u00e1 achei que n\u00e3o ia dar, porque n\u00e3o conseguia ver nada: a fuma\u00e7a j\u00e1 tinha tomado conta e a luz tamb\u00e9m apagou, ent\u00e3o eu s\u00f3 fui no tato com as pessoas que estavam na minha frente. Notei que estava passando pela primeira porta porque vi a silhueta dela dos meus lados, um relance de que eu estava passando por algum lugar. Duas vezes, eu tive um frio na barriga, senti que estava perdendo o equil\u00edbrio e achei que fosse cair, mas n\u00e3o ca\u00ed porque estava esmagado entre as pessoas, n\u00e3o tinha espa\u00e7o para onde cair naquele momento, de t\u00e3o apertado que estava.<\/p>\n<p>Passei da primeira porta, dei um passo, n\u00e3o vi a sa\u00edda. Eu dei outro meio passo, olhei pra cima, vi alguma coisa que me remeteu a uma luz de poste da rua atrav\u00e9s da fuma\u00e7a. Sabe quando algo vai cair e voc\u00ea tem um reflexo r\u00e1pido disso? O meu movimento foi esse, quando eu vi aquela coisa me atirei naquilo, e eu cheguei em p\u00e9 na sa\u00edda para a rua. Aquele momento ali para mim durou muito tempo, porque n\u00e3o tinha onde eu pisar que n\u00e3o fosse pisar em algu\u00e9m, tinha muita gente ca\u00edda na rua, gritando, se mexendo, tentando sair. Pareceu que eu fiquei meia hora escolhendo em quem eu ia pisar para sair de p\u00e9, e acabei escolhendo um cara com as costas mais largas que tinha ali, e passei, sa\u00ed.<\/p>\n<p>Da\u00ed come\u00e7a outro epis\u00f3dio da noite, que \u00e9 t\u00e3o dram\u00e1tico quanto. No primeiro momento que eu sa\u00ed, a primeira coisa que eu fiz foi pegar meu celular e ligar para a minha m\u00e3e, avisar o que tinha acontecido e pedir para ela me buscar. Ela n\u00e3o questionou nada e s\u00f3 foi. Eu desci a rua e tentei me recompor porque estava enjoado, desnorteado, me sentindo tonto, e hoje eu entendo que pode ter sido a fuma\u00e7a que causou. Eu esperei um pouco ali sentado, uns dois minutos talvez, e levantei para procurar os meus amigos. Eu n\u00e3o os encontrei, mas ajudava as pessoas aleat\u00f3rias a encontrar seus pr\u00f3prios amigos, consegui ajudar umas duas pessoas at\u00e9 minha m\u00e3e chegar. Quando ela chegou, veio com minha irm\u00e3 mais nova, que tinha nove anos na \u00e9poca. A gente viu o tumulto, expliquei pra ela que estava procurando meus amigos e ela falou: \u201cN\u00e3o, fica a\u00ed, procura eles, que vou levar sua irm\u00e3 para casa e j\u00e1 volto\u201d. A gente se despediu e eu voltei ali para a frente da boate para procurar. Encontrei uma amiga minha, do curso, que estava ajudando uma amiga dela a encontrar o n\u00famero de algu\u00e9m no celular e desci a rua de novo para continuar procurando. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o nenhuma de que tinha gente machucada, muito menos que gente tinha morrido.<\/p>\n<p>Eu encontrei a menina que tinha conhecido na noite anterior, ela estava machucada, tinha um corte, estava com dificuldade para respirar, tinha um dedo quebrado, estava precisando de ajuda para se locomover. Ela tinha um grupo de amigas em volta dela, todas em p\u00e2nico. desesperadas. Eu falei para essas amigas que eu me responsabilizava por ela, liguei para a minha m\u00e3e de novo, falei com quem eu estava e onde eu estava e a gente se encarregou de lev\u00e1-la para o hospital. Foi o que a gente fez, carregamos ela para o carro, junto com uns guris aleat\u00f3rios que estavam na rua e a levamos para o pronto-atendimento do [Hospital] Patronato, que a gente imaginava que era um local que n\u00e3o estaria lotado ainda. De fato, isso facilitou no cuidado depois. A minha m\u00e3e me conta, eu n\u00e3o me lembro, que me deram oxig\u00eanio l\u00e1 no pronto-atendimento. Mas eu n\u00e3o lembro, s\u00f3 lembro de cuidar dela. Eu falava que n\u00e3o precisava de ajuda at\u00e9 porque quando eu estava acompanhando ela ainda na rua, eu ouvi um param\u00e9dico, algu\u00e9m que saiu de uma ambul\u00e2ncia, dizendo: \u201cSe est\u00e1 respirando e andando, est\u00e1 bem\u201d. E essa era a minha condi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, eu pressupunha que estava bem, e ela n\u00e3o estava, porque n\u00e3o conseguia respirar direito e estava machucada, n\u00e3o conseguia caminhar direito. Naquela noite eu n\u00e3o pedi atendimento nem nada, n\u00e3o tive marcas f\u00edsicas, machucados, queimaduras, nada disso.<\/p>\n<h2><strong>Os dias meses e anos seguintes<\/strong><\/h2>\n<p>Foi na manh\u00e3 seguinte, quando a gente chegou em casa, por volta das 6 horas da manh\u00e3, 7 horas\u2026 Na r\u00e1dio j\u00e1 estavam anunciando mais de 30 mortes, entre 30 e 50. Ali eu tive a dimens\u00e3o de que tinha acontecido algo muito terr\u00edvel, mas s\u00f3 pelo meio-dia que eu fiquei sabendo de n\u00fameros muito maiores, e dos meus amigos. Os dois que tinham dado aquela volta faleceram, e os outros que estavam comigo, que eu tinha certeza que estavam comigo, foram internados, em coma induzido. Eles sobreviveram, e a menina que eu ajudei, tamb\u00e9m. A\u00ed veio a culpa de tudo, que eu senti por muitos anos. A culpa por n\u00e3o me certificar, a culpa por acreditar naquela \u00e9poca que qualquer pessoa que tivesse sa\u00eddo no meu lugar seria melhor que eu. S\u00e3o fantasmas que acompanham ainda. \u00c9 muito doloroso conviver com isso e tentar elaborar. Ali por mar\u00e7o, abril, eu comecei uma terapia que durou at\u00e9 por uns meses. No ano seguinte, eu comecei uma terapia que dura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>No meio do ano eu larguei o jornalismo. Por conhecer a terapia e perceber o quanto aquilo tinha potencial para mim, eu decidi trocar de curso e comecei a fazer psicologia. Me formei, hoje sou psic\u00f3logo, estou seguindo na vida acad\u00eamica, fiz mestrado e agora estou no doutorado, muito em fun\u00e7\u00e3o do que aquilo me causou e ainda me causa. O sentimento se transforma: a culpa deu lugar \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, a uma certa raiva, mas eu n\u00e3o sei descrever essa raiva, ela \u00e9 muito particular. \u00c9 um pouco uma irrita\u00e7\u00e3o com o descaso, a viol\u00eancia que a gente tenha que esperar tanto tempo para uma resposta digna. Eu consegui transformar parte dessa culpa em movimento, em a\u00e7\u00f5es, em projetos para a vida em prol do movimento que busca justi\u00e7a para tudo isso que se passou. Vira uma dor imensa, uma dor emocional, uma dor de alma, sem explica\u00e7\u00e3o. Na verdade, tem explica\u00e7\u00e3o, e \u00e9 isso que a gente est\u00e1 buscando hoje.<\/p>\n<p>Um projeto subjetivo \u00e9 acreditar que existe uma via atrav\u00e9s do meu curso, da minha vida acad\u00eamica, que pode contribuir. Algo mais direto \u00e9 o que estou envolvido ultimamente, e que me faz estar aqui no julgamento hoje, que \u00e9 o envolvimento com os sobreviventes. No in\u00edcio do m\u00eas de novembro, a gente criou um coletivo de sobreviventes, um grupo no WhatsApp chamado ExpreCidade, para dispor aos sobreviventes que queiram participar. Justamente pela proximidade do julgamento, sab\u00edamos que seria muito ma\u00e7ante o n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o que a gente receberia e praticamente inevit\u00e1vel lidar com isso. A ideia \u00e9 dispor de um espa\u00e7o coletivo onde cada um possa compartilhar o que quiser. Muitos ainda est\u00e3o dando os primeiros passos quanto a essa hist\u00f3ria, explorando as possibilidade de falar seus relatos, de compartilhar aquela culpa que sentem. Na primeira semana de grupo, montamos uma carta aberta, com base nos relatos, nas conversas, nos testemunhos que apareceram. \u00c9 uma s\u00e9rie de movimentos que ajudam a gente a se apoiar nesse momento t\u00e3o fr\u00e1gil no qual estamos.<\/p>\n<h2><strong>O julgamento<\/strong><\/h2>\n<p>A expectativa \u00e9 muito grande. A gente est\u00e1 vivendo cada momento intensamente aqui com os familiares, est\u00e1 sendo um momento em que a gente tem que se apoiar muito um no outro. \u00c9 uma expectativa de justi\u00e7a. Eu tenho feito um apelo por humanidade nesse per\u00edodo de julgamento, porque a gente v\u00ea muitas manobras da defesa dos r\u00e9us, que tentam se vitimizar, quando eles s\u00f3 s\u00e3o v\u00edtimas do que eles mesmos foram respons\u00e1veis. Isso n\u00e3o pode continuar impune. Para mim, a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o momento, sabe? N\u00e3o estamos em busca desse momento de justi\u00e7a, ela vai ser um cont\u00ednuo que vai come\u00e7ar quando esse julgamento condenar os quatro r\u00e9us. A partir do in\u00edcio desse cont\u00ednuo, a gente vai garantir que a justi\u00e7a ocorra quando forem criadas condi\u00e7\u00f5es para que isso nunca mais aconte\u00e7a, seja em projetos de lei, em conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Para que n\u00e3o seja um epis\u00f3dio isolado de condena\u00e7\u00e3o, que ela proporcione efeitos saud\u00e1veis para todo mundo. E para que ningu\u00e9m tenha que estar nessa posi\u00e7\u00e3o que eu estou, de ter que fazer esses apelos, de lidar com essa dor durante muitos anos e que nunca vai sair da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os r\u00e9us, se voc\u00ea for perceber, s\u00f3 se emocionam se algo toca a reputa\u00e7\u00e3o deles. Eles n\u00e3o se emocionam com a dor de quem sofreu, de quem realmente \u00e9 v\u00edtima. Isso fica muito n\u00edtido nos movimentos, nas a\u00e7\u00f5es, no que est\u00e1 sendo produzido pela defesa dos r\u00e9us ali, a preocupa\u00e7\u00e3o de zelar por uma reputa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o quer ser assassino, mas que, de fato, tem sua devida responsabilidade nisso que aconteceu. \u00c9 disso que o julgamento se trata: sobre os fatos, n\u00e3o \u00e9 sobre o moral do indiv\u00edduo, se \u00e9 assassino, se n\u00e3o \u00e9, se teve inten\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o teve. \u00c9 uma quest\u00e3o de assumir os riscos e as devidas responsabilidades, que nos fatos s\u00e3o claros. Isso, para mim, \u00e9 inquestion\u00e1vel. Acaba sendo muito violento com a gente, que n\u00e3o sofre s\u00f3 quando est\u00e1 no plen\u00e1rio, sofre todos os dias h\u00e1 quase nove anos. Essa dor \u00e9 infind\u00e1vel, e a gente n\u00e3o est\u00e1 aqui para pedir vingan\u00e7a, n\u00e3o tem nada a ver com isso. Estamos aqui para pedir justi\u00e7a, nesse sentido que eu mencionei, que uma justi\u00e7a seja come\u00e7ada nesse julgamento, porque ela n\u00e3o pode ter fim. Se tiver fim, se n\u00e3o forem feitas as coisas que precisam ser feitas, e n\u00e3o ocorrer a mobiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade como um todo, isso pode acontecer de novo, vai ter fam\u00edlias que v\u00e3o perder seus filhos e vai ter gente que vai precisar correr pela pr\u00f3pria vida. Isso n\u00e3o \u00e9 justo. Para mim, \u00e9 inquestion\u00e1vel a responsabilidade desses quatro r\u00e9us, pela emboscada a que a gente foi submetido. Independentemente de haver ou n\u00e3o mais respons\u00e1veis, isso n\u00e3o tira a responsabilidade de quem est\u00e1 sendo julgado.<\/p>\n<p>Esse meu relato e meu esfor\u00e7o em dizer o que digo n\u00e3o vem sem trabalho anterior. Exigiu muito preparo interno, emocional. Sobretudo, isso \u00e9 um apelo por justi\u00e7a, por empatia a todos que est\u00e3o diretamente ligados \u00e0 trag\u00e9dia, por solidariedade com essa dor, que \u00e9 coletiva, e que \u00e9 individual ao mesmo tempo, de cada um que viveu. E, principalmente, \u00e9 um apelo por humanidade, que \u00e9 algo que foi violentamente roubado durante esse per\u00edodo de espera. Quase nove anos de espera, ainda mais com o desaforamento a Porto Alegre [que foi feito a pedido dos advogados dos r\u00e9us], machuca bastante e nos fragiliza ainda mais, enquanto os r\u00e9us ainda s\u00e3o colocados nos holofotes por uma sociedade que carece de afeto para o nosso lado.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/all.js#xfbml=1\"><\/script><script>\n      !function(f,b,e,v,n,t,s)\n      {if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?\n      n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};\n      if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version='2.0';\n      n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;\n      t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];\n      s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,'script',\n      'https:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/fbevents.js');\n      fbq('init', '474441002974508');\n      fbq('track', 'PageView');\n    <\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/noticias\/brasil\/reus-se-vitimizam-mas-so-sao-vitimas-do-que-eles-mesmos-provocaram-diz-sobrevivente-da-boate-kiss.html\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em depoimento \u00e0 Jovem Pan, Gabriel Rodavoschi Barros relembra o dia da trag\u00e9dia, conta como lidou com a culpa e diz o que espera do julgamento de quatro acusados pelo inc\u00eandio EVANDRO LEAL \/ ENQUADRAR \/ ESTAD\u00c3O CONTE\u00daDOSobreviventes e familiares de v\u00edtimas t\u00eam se reunido em Santa Maria para acompanhar o julgamento dos quatro r\u00e9us [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":5557,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[492,177,130,675,676,677,678,493,679],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5556\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fmbalneario.com.br\/balneario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}