Crítica: “Matrix: Resurrections” supera continuações mas não é isso tudo


Matrix resurrections
Matrix Resurrections (Foto: Reprodução/Warner Bros)

Foram 19 anos de intervalo entre Matrix: Revolutions e Matrix: Resurrections. Tempo suficiente para criar muita expectativa quanto à continuação (que só se tornou uma realidade há pouco tempo), debater sobre o que deu certo e o que deu errado na trilogia original e fazer uma lista de perguntas a serem respondidas que ficaram abertas à interpretação.

No entanto, o principal questionamento é será que precisava de uma continuação?

A resposta é tão difícil que nem mesmo as criadoras da obra entraram em consenso. Apenas Lana Wachowski retornou para dirigir o quarto filme, enquanto Lilly preferiu se manter afastada do projeto. Não há um gabarito a ser consultado para conferir se foi uma boa ideia trazer Matrix de volta, mas uma coisa é certa: uma hora isso iria acontecer.

Não tendo como lutar contra o ocorrido e com um filme já lançado para analisar, o que resta é ver como Resurrections se encaixa nesta saga que, talvez pela distância temporal tenhamos esquecido, já estava em declínio em 2003, após Reloaded e Revolutions.

Autorreferências

A metalinguagem é um dos recursos mais legais que o cinema pode oferecer no quesito “experiência”. Uma mídia usar o próprio espaço e maquinário para criticar o sistema no qual está inserida e a estrutura exploratória que faz essa engrenagem girar? Perfeito!

Matrix é o lugar ideal para isso, já que é literalmente o debate sobre uma realidade criada para parecer perfeita enquanto engana suas fontes de energia para que elas continuem cumprindo seu papel sem criar perturbações.

Porém, o problema não é “o que” Resurrections propõe, mas, sim, “como” o faz.

Sim, seria muito bom fazer autorreferências citando a pressão do estúdio para produzir a continuação, inserir os filmes clássicos na história como um elemento da trama e utilizar frames deles para criar a sensação de que “tem algo errado”. O problema é usar isso de forma exaustiva.

Matrix Resurrections
Matrix Resurrections (Foto: Reprodução)

Legal, confirmou que Matrix é sobre o processo de transição das autoras. Tá bem, Lana, Matrix é uma crítica à sociedade capitalista e à alienação causada pelos avanços tecnológicos e pela obsessão pelo consumo. Ok, já entendemos que era difícil criar um novo filme. Ok, pílula azul. Ok, déja vu. Ok, ok, ok! São muitas explicações e, como quase sempre no cinema, seria melhor mostrar do que falar.

Aquilo que poderia ser a maior virtude de Matrix: Resurrections acabou virando o seu ponto mais fraco. A repetição para se afirmar como algo que já conhecíamos tornou o filme arrastado, com um ritmo sofrível e cansativo, com cenas muito longas e diálogos que tentavam ser mais complexos do que realmente são.

Muitos contras, alguns prós

A sensação que Matrix: Resurrections transmite é a de que tentou fazer muita coisa em pouco tempo.

Enquanto buscava agradar a fanbase mais velha respondendo questões dos filmes anteriores, procurava também atrair a atenção e a dedicação dos espectadores novos por meio das intermináveis explicações. Também tenta amarrar as pontas que ficaram abertas nos antecessores enquanto apresenta opções para a expansão desse universo em eventuais continuações e spin-offs.

A história de amor como motor para todo o resto já havia sido estabelecida nas sequências anteriores, mas é necessário bastante tempo para justificar a volta de Neo e Trinity e colocar Keanu Reeves e Carrie-Ann Moss de novo naquele universo.

É um mundo muito grande para tentar abraçar.

Matrix Resurrections
Matrix Resurrections (Foto: Reprodução/YouTube)

Matrix: Resurrections, para quem vê assim, não tem nada que salve. Mas não é bem assim… O filme fala muito bem o “idioma Matrix”. A presença de Lana Wachowski foi fundamental para não deixar escapar a essência daquele universo, então existem elementos que funcionam muito bem. O que falha são os conectivos que os unem.

Ótimos personagens novos são apresentados, como Bugs (Jessica Henwick). As novas versões de personagens antigos só se tornam questionáveis por causa do olhar nostálgico apaixonado de certos fãs e, na prática, os novos Morpheus (Yahya Abdul-Mateen) e Agente Smith (Jonathan Groff) são extremamente aceitáveis. O papel do terapeuta interpretado por Neil Patrick Harris é bastante criativo e seus diálogos atribuem muito valor à saga como um todo.

O problema é que o parâmetro estabelecido pelo primeiro Matrix é muito alto e, aparentemente, inalcançável.

Matrix resurrections
Matrix Resurrections (Foto: Reprodução/Warner Bros)

Matrix não é sobre nostalgia, é sobre ineditismo.

O que faz Matrix ser, de fato, Matrix, é uma conjunção muito feliz de momento (desenvolvimento acelerado e boom do mercado de informática e tecnologia), técnica (revolução na forma de filmar cenas de ação) e reflexão (o debate filosófico sobre o papel da tecnologia na sociedade era incipiente). Nada disso é novo em 2021.

A vontade de voltar para esse universo vai existir sempre, mas sempre será isso que a saga terá para oferecer.

A sensação despertada pelo primeiro filme nunca vai se repetir. Já sabemos o que é a Matrix, já sabemos quem são Neo, Trinity e Morpheus, já sabemos quais críticas a história levanta. Já sabíamos disso tudo depois das primeiras continuações e o que parece ter mudado foi a retomada de uma certa esperança.

Assistir a Matrix e a qualquer coisa relacionada a esse universo é como (dizem) experimentar certas drogas. A primeira vez é marcante e as demais tentarão sempre emular aquele momento, sem conseguir, jamais, alcançá-lo.

 





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