Os três lados da guerra na Ucrânia: relatos de quem viveu, vive ou tem parentes na região


Conflito afeta cidadãos que querem deixar o país mas estão a mais de 10 mil quilômetros da fronteira; brasileiro lotado em Kiev fala em ‘pegar em armas’ em uma situação extrema

MIHAI BARBU / AFPMais de 1 milhão de pessoas deixaram a Ucrânia em uma semana

Em meio a uma guerra, qual seria o seu posicionamento: fugir para se salvar, ficar e lutar ou tentar ajudar mesmo à distância? Essas são as realidades de três pessoas que têm sido afetadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia que acontece desde o dia 24 de fevereiro. A busca por exílio foi a opção de mais de 1 milhão de pessoas que já deixaram o país e cruzaram as fronteiras, mas o desejo de permanecer e ajudar a Ucrânia na guerra, também é uma escolha que atinge vários cidadãos. Esses não são os únicos cenários. Há, ainda, aqueles que têm familiares na região e buscam informações incessantemente.

Esse é o caso de Priscila e Alexsandr Sliusarenko. A brasileira, que é casada com um ucraniano que está há 11 meses no Brasil, tem duas pessoas da família na Ucrânia: a sogra, que está se escondendo no porão em Kiev, e o cunhado, que foi obrigado a ir para a guerra por causa da lei marcial que está em vigor no país. “É uma situação difícil, o tempo inteiro [sinto] insegurança e medo. Ela liga chorando e a gente fica em pânico porque não tem muito o que fazer”, disse Priscila em entrevista à Jovem Pan. “Meu esposo fica o tempo inteiro observando as notícias, acompanhando todas as atualizações”, segue. De acordo com a brasileira, essa foi a forma que o casal encontrou de ficar por dentro do conflito.

“Desde o começo da guerra, a gente não tem dormido. É triste tudo isso”, desabafa Priscila, que pretendia ir para a Ucrânia em março, em um plano que precisou ser adiado em razão do conflito que atinge o Leste Europeu há cerca de 10 dias. O casal, ao menos, consegue se comunicar com a mãe de Aleksandr por meio de aplicativos de mensagens. “A gente se fala com frequência, só a comunicação com meu cunhado que é mais complicada, mas sempre que ele pode envia uma mensagem falando que está tudo bem”, resume . Mesmo com o cenário que toma conta da Ucrânia – e que não parece perto do fim, já que os países não chegaram a um acordo de cessar-fogo –, a esperança prevalece na família. “Cremos que esse momento de dor, essa tragédia, vai passar. Vamos voltar para a Ucrânia”, finaliza.

De refugiado a voluntário na fronteira

O treinador Roberto Szymanski sabe bem o que é viver em uma guerra. Ele e sua equipe de futebol estavam na Ucrânia para uma pré-temporada quando foram surpreendidos pelo conflito. Segundo ele, os ucranianos não acreditavam que a Rússia iria invadir o país. “Eles falavam que era uma discussão que rolava há mais de 10 anos”, comenta o técnico, que conseguiu sair do país logo no segundo dia de invasão. “Acordamos com as sirenes tocando”, segue, lembrando do dia em que a guerra começou. Desde o início da invasão, o grupo passou a tentar contato com a Embaixada brasileira para pedir ajuda, mas não tiveram sorte. Por isso, decidiram sair por conta própria. “Em uma viagem que teoricamente duraria cerca de duas horas, levamos doze. Havia muita gente querendo sair, filas em postos de gasolina, pessoas abandonando o carro e indo andando, um caos total”, relatou Szymanski. O comandante do time revela que enfrentou dificuldades na hora de cruzar a fronteira, porque, de acordo com ele, “a prioridade eram mulheres, crianças, pessoas de idade, ucranianos e depois os estrangeiros”.

refugiados da Ucrânia

Milhares de pessoas tentam atravessar a fronteira da Ucrânia com a Polônia

Hoje, Roberto Szymanski e seus atletas estão em segurança na Polônia. Eles não sabem, porém, se vão voltar para o Brasil ou não. “Temos que pensar muito, não temos uma decisão tomada sobre isso, mas estamos refletindo toda a situação para ver o que fazer daqui para frente”. Szymanski mora há 10 anos na Europa, e depois de ter passado por essa experiência, conta que decidiu ajudar quem ainda não conseguiu sair. “Eu acho que é obrigação, principalmente por ter tido determinadas dificuldades, penso em minimizar o sofrimento do próximo”, resume. O projeto dele ainda é recente em comparação a outros que estão funcionando desde o primeiro dia de invasão. “A situação na fronteira é muito triste, a gente vê pessoas se despedindo, passando dificuldade, gente desistindo de cruzar porque o marido não pode passar. Não tem como não se sensibilizar e querer ajudar”, desabafa. Szymanski tem sido auxiliado por um grupo de pessoas na tentativa de receber e alocar refugiados dentro do território polonês.

“Queremos ajudar Kiev; no momento não pensamos em sair”

“Hoje acordei às 4 da manhã ao som de várias explosões aqui em Kiev. A Invasão começou”, foi com esse tuíte que o brasileiro Isaias Xavier começou a registrar tudo o que acontece na Ucrânia desde o primeiro dia de invasão. Ele e a esposa, que é ucraniana, chegaram a cogitar deixar o país e voltar para o Brasil, porém, neste momento, o casal quer permanecer por lá. “Queremos ajudar a cidade, seja com doação de sangue, fazendo molotov ou barreiras [de proteção]. Em uma situação extrema, até pegar em armas”, explica Xavier.

 

O brasileiro, que mora na Ucrânia há oito meses, tem usado as redes sociais para mostrar tudo que acontece em Kiev. “Resolvi registrar porque acho importante que quem esteja aqui registre as atrocidades praticadas pelos Estados terrorista da Rússia e da Bielorrusia”, declarou. Para ele, a internet tem sido fundamental neste momento, principalmente para buscar informações. “Os invasores russos sempre tentam destruir os sistemas de comunicação, mas o governo e as empresas privadas de telecomunicações sempre levantam um novo backup”, comenta, cita o ataque à antena de televisão em Kiev na terça-feira, 1º. Por meio de sua rede social, Xavier tem compartilhado o seu dia e mostrado algumas mudanças que os aplicativos locais fizeram para ajudar a população, como um aplicativo de transporte público que agora serve como alerta de bombardeio.

 

 

 

 





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