Retomada dos serviços, queda do desemprego e Auxílio Brasil devem trazer alívio à economia em ano de eleição


Incertezas políticas, inflação pressionada, temor de descontrole dos gastos públicos, perda do PIB per capita e baixo crescimento ainda são desafios para a recuperação econômica sustentável

UCIANO FREIRE/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOMinistro da Economia, Paulo Guedes, afirma que o Brasil vai encerrar 2022 com R$ 1,2 trilhão em investimentos contratados

Em uma situação de normalidade, o ano de 2022 já seria bastante desafiador para a economia brasileira com o país retornando ao patamar de baixo crescimento que se encontrava há três anos após anular, em 2021, as perdas geradas pela pandemia do novo coronavírus. O cenário, porém, é pressionado pelo persistente incômodo de uma inflação em dois dígitos, e os efeitos nefastos que a aceleração dos juros para conter essa variação de preços têm nas atividades econômicas. Parte desta percepção já foi captada pelo mercado e pelo governo, que, apesar de valores diferentes, estimam forte desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. Por outro lado, o pagamento de parcelas mínimas de R$ 400 do Auxílio Brasil e os investimentos privados contratados devem balancear a economia e evitar perdas expressivas. O mercado de trabalho também deve ser um ponto de alívio, principalmente com a normalização do setor de serviços, o setor que mais emprega no país, em meio à retomada completa das atividades presenciais, como nas áreas de educação e grandes eventos.

O acirramento com a proximidade das eleições — evento que tradicionalmente já é cercado de volatilidade — e as indicações de uma nova polarização política também são ingredientes fundamentais para engrossar o caldo de incertezas que o país vai precisar enfrentar nos próximos meses. O novo ciclo eleitoral também deve reforçar a atual desconfiança dos investidores na capacidade de o Ministério da Economia se manter fiel ao compromisso fiscal e não se deixar coagir por manobras populistas para alavancar a popularidade do governo. Em outra ponta, o ano eleitoral deve suspender completamente o avanço de temas espinhosos, como grandes reformas e privatizações, postergando, mais uma vez, para o ano seguinte discussões urgentes para tirar o país da armadilha de baixo crescimento. No cenário internacional, as pressões virão da reversão do ciclo de políticas monetárias estimulativas, principalmente nos Estados Unidos, que irrigaram o mundo com dólares e deram um empurrão no processo de recuperação da economia global no ano passado. O recente surgimento da variante Ômicron da Covid-19 reacendeu velhos temores, que podem também ser um fato de pressão na normalização das atividades mundiais.

Economia vira o ano com fôlego curto

Apesar de um crescimento próximo de 5% da economia em 2021, — o maior registro desde 2010 —, o Brasil entra no ano novo com uma acentuada perda de fôlego. O cenário de desaceleração foi confirmado pela queda de 0,1% do PIB no terceiro trimestre em comparação com o período anterior. O registro deu sequência ao recuo de 0,4% registrado nos meses de abril e junho, e trouxe divergências às expectativas para as atividades em 2022. Previsões do Boletim Focus divulgadas nesta segunda-feira, 27, que reúne mais de uma centena de estimativas de bancos, casas de investimento e demais instituições, apontam para alta de apenas 0,4% em 2022. A estimativa já chegou a superar a casa de 2%, mas vem sofrendo uma sucessão de revisões para baixo. Já o Ministério da Economia mantém a perspectiva de a economia avançar 2,1% em 2022. O BC, por sua vez, reduziu a expectativa para 1%. O abismo entre as projeções de entidades privadas — com as mais pessimistas prevendo recessão econômica —, e das estimativas do governo federal está no ponto de vista de quem observa os indicadores. Enquanto o mercado dá mais atenção para as pressões geradas pela inflação, alta dos juros e o aumento do risco fiscal, a equipe econômica joga luz para a contratação de investimentos no país e a retomada do mercado de trabalho.

“Não será um ano fácil”, resume Márcio Antonio Salvato, coordenador do curso de ciências econômicas do Ibmec de Belo Horizonte. Além da desaceleração das atividades na totalidade, o economista chama a atenção para a queda do PIB per capita, ou seja, o resultado da geração de riquezas dividido pela população brasileira. Em 2020, o número caiu 4,8% — ante retração de 3,9% do PIB — o mais expressivo desde o início da série histórica, em 1996. “A expectativa de crescimento em torno de 2% da economia não é o suficiente para tapar o buraco que nos metemos nos últimos dois anos em consideração à renda per capita. É um problema que não vai ser resolvido em 2022, e teremos pelo menos o próximo triênio com uma taxa de crescimento da economia bem baixa”, diz. A opinião é reforçada por uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), que apontou que o PIB per capita de cada brasileiro só deve voltar ao pico de 2013 no ano de 2028. A entidade estima alta de 0,7% do PIB em 2022, ante crescimento de 0,9% da população brasileira. “Isso indica que o PIB per capita está caindo, e não há crescimento quando o PIB per capita cai”, afirma Claudio Considera, coordenador de projetos do Ibre/FGV.

Auxílio Brasil, microcrédito e investimentos privados balanceiam clima de desafio

Os temores de descontrole dos gastos públicos com o apoio do governo na mudança das regras do teto de gastos — a principal âncora fiscal do país — para a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios vão continuar assombrando a economia em 2022. O texto, que foi promulgado pelo Congresso em dezembro, libera mais de R$ 108 bilhões no Orçamento de 2022 ao mudar o prazo para indexar o peso da inflação no teto de gastos, além de autorizar o governo a postergar o pagamento de dívidas já reconhecidas pela Justiça. “O aumento da incerteza fiscal implica em um risco-país mais alto, maior depreciação do real, piores perspectivas para a inflação e, em última instância, uma taxa de juros neutra mais alta”, detalha o Itaú em relatório aos clientes.

A aprovação da PEC foi fundamental para o o governo manter o Auxílio Brasil, o programa social lançado no quarto trimestre para substituir o Bolsa Família, com parcelas mínimas de R$ 400 a partir de dezembro, com expectativa de atingir 17 milhões de famílias. Para analistas, a inciativa de transferência de renda é uma decisão correta do governo, mas errada na sua forma de viabilidade. “Seria importante que se buscasse cortar outras despesas, isenções, incentivos e mesmo os gastos de custeio. Infelizmente, não foi a alternativa que o governo e o Congresso preferiram. Estamos vendo uma PEC, duas emendas na verdade, que revolucionou a questão do teto, levando a perda da credibilidade na política fiscal e que não contempla um centavo sequer de ajuste fiscal”, pontuou Felipe Salto, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), em entrevista à Jovem Pan News.

Apesar do aumento do estresse do mercado financeiro, o governo aposta em uma série de iniciativas para fazer contrapeso aos desafios. O Auxílio Brasil é um das principais apostas para impulsionar o consumo. O governo federal também vai anunciar no início de 2022 uma nova linha de microcrédito focada em pequenos empreendedores e pessoas com o nome negativado. A medida será paga com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), com ao menos R$ 3 bilhões disponibilizados. No lado da iniciativa privada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou no fim de dezembro que o próximo ano deve encerrar com R$ 1,2 trilhão em investimentos contratados com a aprovação de marcos legais, leilão do 5G, entre outras medidas. “Você melhora o ambiente de negócios e os investimentos começam a aparecer de todos os lados. O Brasil se tornou uma enorme fronteira de investimentos”, disse.

Inflação deve perder força ao longo do primeiro semestre

A economia brasileira em 2022 vai receber a incômoda herança de uma inflação pressionada em dois dígitos, algo que não se via há seis anos. De acordo com dados do Boletim Focus, o IPCA deve encerrar 2022 a 5,03%, estourando pelo segundo ano consecutivo o teto da meta perseguida pelo BC, de 5%, com centro de 3,5% e piso de 2%. O valor está acima do previsto pela alta de 4,7% do Banco Central (BC). A pressão inflacionária, no entanto, tende a se dissipar ao longo do primeiro semestre em meio à normalização dos motivos que levaram a variação de preços às alturas em 2021, principalmente a reorganização das cadeias produtivas globais. “Estes fatores que apertaram muito a inflação em 2021 serão revertidos, e isso vai de encontro com uma política monetária que está subindo”, explica Salvato, do Ibmec. Na tentativa de manter o IPCA dentro da meta de 2022 e 2023, o BC deu início a um novo ciclo de escalada dos juros, passando a Selic de 2% em janeiro de 2021 para 9,25% ao ano em dezembro. A autoridade monetária já deixou contratada uma série de novos ajustes para cima ao longo dos próximos meses, devendo levar a taxa a 11,75% no seu pico. O patamar, no entanto, ainda não é certo, afirma o presidente do BC, Roberto Campos Neto. “Entendemos que tem um movimento mais persistente [de inflação], pode demandar um ciclo mais longo. Esse é um tema de decisão de cada reunião do Copom”, afirmou no dia 16 de dezembro.

O mesmo remédio prescrito para trazer a inflação para baixo, porém, age contra o desenvolvimento da economia. Juros altos se refletem no encarecimento do “custo do dinheiro”, ou seja, a tomada de crédito, o que desemboca em menos investimentos, menos geração de empregos, menos consumo e, no fim, menos crescimento do país. Esta queda das atividades somada à inflação elevada — ao menos em parte do ano — devem levar o Brasil ao cenário de estagflação a partir de 2022. O fenômeno, que reúne o “pior dos dois mundos” da economia, se reflete na sociedade de forma perversa com o agravamento da taxa do desemprego, corrosão do poder de compra da população e diminuição no ritmo e volume de investimentos. Para Fernanda Consorte, economista-chefe do banco Ourinvest, o caminho para a saída do quadro de estagflação passa pela redução do ritmo econômico. “Tem que ter esse sofrimento no crescimento para que a inflação baixe, e depois pensar em crescer sem aumentar a inflação”, afirma. Nesse meio tempo, o brasileiro vê a sua condição se tornar mais apertada com os reflexos gerados pela alta dos preços e a paralisação econômica. “Por um lado, a inflação come a renda das pessoas. Por outro, quem não tem emprego vai ter ainda mais dificuldades para encontrar trabalho, já que como não há crescimento, o empregador deixa de contratar.”

Eleições ‘travam’ reformas e aumentam incertezas

O adiantamento das discussões eleitorais para 2021 já deram o tom do nível do debate que deve predominar nos próximos meses. Apesar de todo ciclo eleitoral ser cercado de volatilidade, o recrudescimento da polarização entre o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além das indefinições dos candidatos da terceira via, devem gerar um peso extra neste cenário. O dólar vai ser um dos principais termômetros desta volatilidade por refletir quase em tempo real o humor dos mercados mediante o desdobramento dos candidatos. O desempenho do Ibovespa, o principal índice da Bolsa de Valores brasileira, também é um indicador comumente usado para medir a pressão que a disputa eleitoral faz em cima da economia. A incerteza também afeta a tomada de decisões. Em meio a disputa de candidatos com propostas tão distintas para os rumos econômicos, empresas e grandes investidores preferem ficar em compasso de espera antes de tomar qualquer grande decisão envolvendo dinheiro, como o aumento de contratações, a ampliação da capacidade produtiva ou a expansão de unidades.

O clima de letargia também se estende à classe política, principalmente aos agentes públicos que estarão concorrendo à reeleição. Para evitar qualquer desgaste com a base de apoio, dificilmente deputados e senadores irão se empenhar em temas muito espinhosos até outubro. Isso inclui medidas que choquem com o interesse de grupos de eleitores distintos, como os impactos da reforma tributária para o setor privado e as mudanças propostas pela reforma administrativa nas regras do serviço público. Para o Itaú, a agenda de reformas seria um caminho para reduzir o clima de incertezas no país. “Uma rápida retomada da agenda de reformas, incluindo medidas como uma reforma administrativa ampla, que fortaleceria a flexibilidade e resiliência fiscais, poderia ajudar a aliviar as condições financeiras e reduzir a incerteza. Nesse cenário, a maior confiança do consumidor e das empresas pode levar a um crescimento mais rápido no próximo ano. Mas, para isso, as reformas precisam avançar”, informou.





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